Pequena propriedade rural pode ser penhorada? Entenda a impenhorabilidade e como proteger sua terra

Imóvel rural de até quatro módulos fiscais trabalhado pelo produtor é impenhorável. Veja como funciona essa proteção, seus requisitos e limites.

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A pequena propriedade rural é um dos bens mais importantes da família produtora. É nela que o produtor trabalha, desenvolve sua atividade e retira sua renda e, muitas vezes, ela representa o patrimônio construído ao longo de uma vida inteira.

Por isso, a Constituição Federal protege a pequena propriedade rural trabalhada pela família, impedindo que seja penhorada em determinadas situações. Essa proteção é conhecida como impenhorabilidade da pequena propriedade rural.

Na prática, isso significa que, preenchidos os requisitos legais, o imóvel rural não pode ser tomado e levado a leilão para pagamento de dívidas, pois a lei busca preservar o patrimônio mínimo e a subsistência da família rural.

Mas há um ponto importante: esse direito não é automático. O produtor precisa saber quando a proteção se aplica, quais documentos deve reunir e em que momento deve alegar a impenhorabilidade no processo.

O que é a impenhorabilidade da pequena propriedade rural?

A impenhorabilidade da pequena propriedade rural é a proteção constitucional destinada a preservar um patrimônio mínimo para que o produtor possa exercer sua atividade e garantir a subsistência própria e de sua família.

A Constituição Federal, no art. 5º, XXVI, estabelece que a pequena propriedade rural, assim definida em lei, desde que trabalhada pela família, não será objeto de penhora para pagamento de débitos decorrentes de sua atividade produtiva.

O Código de Processo Civil repete a proteção no art. 833, VIII, ao incluir a pequena propriedade rural trabalhada pela família entre os bens impenhoráveis.

O objetivo é preservar a dignidade do produtor rural, a continuidade da atividade rural e a função social da terra. A lógica é simples: a execução judicial não pode retirar do produtor o próprio instrumento de trabalho e de sustento da família.

O que é considerada pequena propriedade rural?

Para o imóvel ser definido como pequena propriedade rural, ele deve atender a dois requisitos, e eles são cumulativos: o tamanho e a exploração familiar.

Área de até quatro módulos fiscais

A Lei nº 8.629/93, que regulamenta a reforma agrária, define a pequena propriedade rural como o imóvel com área de até quatro módulos fiscais (art. 4º, II, “a”).

O módulo fiscal varia de município para município. Em algumas regiões, um módulo fiscal representa poucos hectares; em outras, área muito maior. Por isso, não é possível afirmar, de forma genérica, que toda área de determinado tamanho será pequena propriedade rural.

Trabalhada pela família

O outro requisito é a demonstração de que a propriedade é trabalhada pela família ou serve como fonte de renda para ela.

A exploração pode ocorrer por cultivo direto, criação de animais, exploração em regime familiar ou até mesmo por parceria ou arrendamento, desde que demonstrada a ligação econômica do imóvel com a subsistência familiar.

A propriedade pode ser formada por mais de uma matrícula

O Supremo Tribunal Federal, no Tema 961, firmou tese decisiva para o produtor cujo imóvel está dividido em várias matrículas: É impenhorável a pequena propriedade rural familiar constituída de mais de 01 (um) terreno, desde que contínuos e com área total inferior a 04 (quatro) módulos fiscais do município de localização (ARE 1.038.507, Rel. Min. Edson Fachin, Tribunal Pleno, j. 21/12/2020).

Isso significa que a proteção não está condicionada a uma matrícula, mas sim ao conjunto de matrículas que formam a pequena propriedade rural. O que importa é a área total e a continuidade dos imóveis.

A exigência de continuidade, aliás, tem sido interpretada com bom senso. O Tribunal de Justiça do Paraná já reconheceu a impenhorabilidade de imóveis que não eram fisicamente contíguos, mas estavam interligados por servidão de passagem e eram explorados como uma unidade (AI 0117618-08.2024.8.16.0000).

O tamanho considera a reserva legal e as áreas de preservação?

O Estatuto da Terra (Lei nº 4.504/64) determina, no art. 50, §3º, que o número de módulos fiscais de um imóvel rural será obtido dividindo-se sua área aproveitável total pelo módulo fiscal do Município. Área aproveitável é a passível de exploração agrícola, pecuária ou florestal, o que exclui a reserva legal e as áreas de preservação permanente.

Na prática: se a propriedade tem 100 hectares, dos quais 20 são de reserva legal, o número de módulos fiscais deve ser calculado sobre 80 hectares, e não sobre 100.

A lógica é coerente. O módulo fiscal existe para medir a área mínima em que uma família consegue viver da terra. Reserva legal e área de preservação não produzem renda nem permitem trabalho familiar, porque a lei ambiental proíbe explorá-las. Contá-las no cálculo seria punir o produtor justamente por cumprir a legislação ambiental.

E se o produtor tiver outros bens?

O fato de o produtor possuir outros imóveis e bens não afasta, por si só, a impenhorabilidade da pequena propriedade rural. O Superior Tribunal de Justiça já decidiu que o bem protegido não precisa ser o único imóvel rural do executado (REsp 1.913.234/SP).

A análise se concentra nos requisitos constitucionais e legais: o imóvel é pequena propriedade rural, com até quatro módulos fiscais, e é trabalhado pela família ou serve à sua subsistência.

E se a pequena propriedade rural foi dada em garantia?

Muitos acreditam que a pequena propriedade rural perde a proteção quando o produtor oferece o imóvel em garantia, como hipoteca ou alienação fiduciária.

Entretanto, o Supremo Tribunal Federal, no mesmo Tema 961, já decidiu que a garantia da impenhorabilidade é indisponível, assegurada como direito fundamental do grupo familiar, e não cede ante gravação do bem com hipoteca.

Esse entendimento tem sido utilizado para sustentar que a alienação fiduciária sobre a pequena propriedade rural também não afasta a proteção constitucional. O Tribunal de Justiça do Paraná já acolheu a tese e declarou nula a cláusula de alienação fiduciária que recaía sobre pequena propriedade rural, registrando que a garantia constitucional não pode ser interpretada à luz da Lei nº 9.514/97, mas o contrário.

A razão é simples: um contrato particular não pode eliminar, de forma automática, uma proteção constitucional criada para preservar a subsistência da família rural.

A lavoura e os frutos da pequena propriedade também são protegidos?

A proteção da pequena propriedade rural não se limita à terra nua.

Se a finalidade da norma é preservar a subsistência da família, permitir a penhora da produção agrícola, quando ela é essencial à subsistência familiar, esvaziaria a garantia constitucional. Portanto, a lavoura e os frutos produzidos na pequena propriedade também podem estar protegidos, pois representam a renda que mantém o produtor e sua família.

Em caso patrocinado pela banca Luz, Castro & Bornelli Advogados, o Tribunal de Justiça do Paraná enfrentou diretamente a questão. A decisão de primeiro grau havia autorizado a penhora de 30% da produção agrícola de imóvel já declarado impenhorável, ao argumento de que o Código de Processo Civil admite, em tese, a penhora de frutos e rendimentos. O Tribunal reformou a decisão e fixou como tese de julgamento que “a impenhorabilidade da pequena propriedade rural se estende aos frutos e rendimentos auferidos pelo pequeno produtor rural, visando à proteção da subsistência da entidade familiar”.

O reconhecimento da impenhorabilidade é automático?

Não. Mesmo sendo proteção constitucional, a impenhorabilidade precisa ser alegada no processo e reconhecida por decisão judicial.

Se a alegação for genérica, sem documentos suficientes, o pedido pode ser negado. Por isso a defesa deve ser estruturada desde a citação, com prova da área, da exploração familiar e da importância econômica da propriedade para a subsistência do núcleo familiar. Reunimos as primeiras providências em Fui citado em execução de dívida rural: o que fazer?.

Quem deve provar que a terra é trabalhada pela família?

O Superior Tribunal de Justiça, no Tema 1.234, fixou que cabe ao produtor provar que a pequena propriedade rural é explorada pela família para fins de reconhecimento de sua impenhorabilidade.

No Paraná, o entendimento já vinha sendo aplicado por força do IRDR 40 do TJPR, segundo o qual compete ao produtor executado comprovar tanto o enquadramento no conceito legal de pequena propriedade quanto a destinação do imóvel à renda e à subsistência familiar.

O efeito prático é direto: o produtor não deve esperar que o juiz reconheça a proteção sozinho. Sem prova nos autos e sem a atuação de um advogado especialista em direito rural, o imóvel poderá ser penhorado ainda que preencha todos os requisitos legais.

Conclusão

A pequena propriedade rural é protegida da penhora pela Constituição Federal, com o objetivo de garantir os meios de subsistência do produtor e de sua família.

Para isso, é necessário demonstrar que o imóvel possui até quatro módulos fiscais, calculados sobre a área aproveitável, e que é trabalhado pela família ou serve à subsistência familiar. A proteção alcança a terra, pode alcançar mais de uma matrícula contínua, não cede automaticamente diante de garantia contratual e pode se estender à lavoura.

Mas ela não é automática; depende de ser alegada no momento certo e provada com documentos.

Se sua propriedade rural foi penhorada, indicada à penhora ou está sob risco de leilão, reúna a documentação e procure um advogado especializado em direito rural. Cada caso exige análise individual, e a diferença entre perder e preservar a terra pode estar na forma e no momento em que o direito é apresentado ao Judiciário.

Tobias Marini de Salles Luz – advogado especialista em agronegócio, sócio-fundador da banca LCB Advogados. Contato:

📞 WhatsApp: (44) 9 9158-2437

📧 E-mail: tobias@direitorural.com.br

📱 Instagram: @tobiasluzadv

Julio César Nascimento Bornelli – advogado do agronegócio, sócio-fundador da banca LCB Advogados. Contato:

📞 WhatsApp: (44) 9 9158-2437

📧 E-mail: juliocesar@direitorural.com.br

Perguntas frequentes

Preciso provar que a família trabalha na pequena propriedade rural?

Sim, e a prova é do produtor. O requisito é cumulativo com o de tamanho: não basta ser pequena, é preciso ser trabalhada pela família e acompanhada de documentos capazes de demonstrar esse fato.

A proteção vale se eu tiver dado o imóvel em garantia?

Dar o imóvel em garantia não afasta automaticamente a proteção. A impenhorabilidade da pequena propriedade rural é garantida pela constituição e não pode ser afastada por hipoteca ou de alienação fiduciária.

A terra arrendada a terceiro continua protegida?

Pode continuar, desde que a renda vinda do arrendamento da pequena propriedade sirva à subsistência da família.

Perdi o prazo dos embargos. Ainda posso alegar a impenhorabilidade?

Em regra, sim. A impenhorabilidade da pequena propriedade rural é matéria de ordem pública e pode ser alegada enquanto não houver preclusão ou consolidação da expropriação. Contudo, quanto mais tarde a alegação, maior o risco.

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