FAO/ONU – A produção de alimentos na era dos biocombustíveis

O debate sempre renovado a respeito da suposta incompatibilidade entre culturas alimentares e lavouras destinadas à produção de biocombustíveis ganhou uma nova perspectiva, com o peso de uma opinião chancelada pela Organização das Nações Unidas (ONU). Traduzido para mais de dez idiomas, um artigo escrito por José Graziano da Silva, diretor-geral da ONU para Agricultura e Alimentação (FAO, na sigla em inglês), rodou o mundo nos últimos dias afirmando que a disputa ‘fuel versus food’ não passa de “falsa dicotomia”.

José-Graziano-da-SilvaPara o brasileiro, que é uma das maiores autoridades globais em agricultura, “é possível obtermos mais combustível, mais alimentos e mais prosperidade para todos”.

O texto de José Graziano desencadeou a publicação de uma carta conjunta das cinco maiores associações relacionadas aos biocombustíveis: a Global Renewable Fuels Alliance, federação internacional que representa produtores de biocombustíveis de 45 países, a associação europeia Epure, a norte-americana RFA, a canadense CRFA e a brasileira Unica.

Na carta, publicada pelo jornal Financial Times, as entidades comemoram as posições defendidas pelo executivo da ONU e afirmam que é “reconfortante” a análise, segundo a qual a produção de biocombustíveis “pode ser um meio eficaz para aumentar a segurança alimentar”.

O novaCana traduziu em primeira mão o artigo de José Graziano, até o presente momento, inédito em português. Abaixo, o texto na íntegra:

A produção de alimentos na era dos biocombustíveis
José Graziano da Silva

ROMA – Nos últimos anos, os biocombustíveis transformaram-se num tema de discórdia. Alguns tratam essa fonte de energia renovável derivada de matéria orgânica como uma varinha mágica na luta contra a mudança climática. Outros, porém, veem os biocombustíveis como uma ameaça existencial, porque as plantas utilizadas em sua fabricação competem por terras agrícolas e água que poderiam ser empregadas na produção de alimentos.

Mas essa é uma falsa dicotomia. A opção não deve ser entre alimentos e combustível. É possível conciliar ambos. Em condições apropriadas, os biocombustíveis podem ser um meio eficaz de aumentar a segurança alimentar, provendo os agricultores pobres de uma fonte de energia sustentável e acessível.

Em alguns países africanos sem saída para o mar, a gasolina custa o triplo que a média mundial, o que torna o preço do combustível uma das principais barreiras para a expansão agrícola. Ampliando o uso de biocombustíveis nessas regiões, seria possível incrementar a produtividade e criar novas oportunidades de emprego, especialmente nas áreas rurais. O efeito pode ser maior ainda caso a demanda adicional de matéria-prima criada pelos próprios biocombustíveis seja atendida por agricultores familiares e pequenos produtores.

Os biocombustíveis são hoje uma realidade e sua utilização deve continuar crescendo em ritmo constante. Em 2013, os biocombustíveis responderam por 3% de todo o combustível usado no setor de transportes no mundo, segundo um relatório conjunto da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) e da Organização para a Cooperação e
Desenvolvimento Econômico (OECD). Embora essa percentagem deva se manter estável, em termos absolutos podemos esperar que a produção de biocombustíveis aumente, já que o mercado de combustíveis para transporte também está em expansão.

Com efeito, a projeção é que o volume de biocombustíveis produzido em todo o mundo seja duplicado até 2023 em relação aos níveis de 2007. Se essa previsão se confirmar, os biocombustíveis consumirão 12% da produção mundial de cereais secundários, 28% da produção de cana-de-açúcar e 14% do óleo vegetal. Para fazer frente a essa expansão, precisaremos de políticas, programas e infraestrutura que assegurem o seu uso sustentável, sem distorcer o mercado de alimentos ou comprometer a segurança alimentar, que sempre será a primeira prioridade.

Os pioneiros dos biocombustíveis provavelmente ficariam surpresos com a sua diminuta participação na atual oferta mundial de combustíveis. O primeiro motor projetado por Rudolf Diesel, no final do século XIX, era movido a combustível derivado de óleo de amendoim. Henry Ford chegou a fazer sondagens na Flórida com o intuito de comprar terras e plantar cana-de-açúcar, convencido de que os Estados Unidos não aceitariam a poluição gerada pela queima dos combustíveis fósseis ou a dependência que a importação de petróleo a fim de produzir gasolina implicava.

Somente em décadas recentes os biocombustíveis retomaram seu apelo original, graças aos esforços aplicados na obtenção de energia a custo acessível, geração de renda e atenuação daquela dependência sobre a qual Ford alertara. Mais recentemente, a preocupação com a poluição, com a mudança climática e com o caráter finito dos combustíveis fósseis produziu uma escalada na demanda – que agora precisa ser atendida.

A flexibilidade é o fator chave nos esforços para alavancar a posição dos biocombustíveis no mundo, impulsionando a produtividade agrícola, o desenvolvimento rural e a segurança alimentar. Para atenuar a competição entre alimentos e combustíveis, por exemplo, os agentes políticos devem criar mecanismos que possam dirimir a volatilidade de preço dos gêneros alimentares básicos. As autoridades poderiam determinar que o percentual de biocombustíveis misturados aos combustíveis convencionais fosse elevado em momentos de queda no preço dos alimentos, e diminuído em períodos de alta. Isso serviria como uma espécie de estabilizador automático. Os agricultores pobres continuariam desfrutando de uma demanda pujante para seus produtos, mesmo com a queda nas cotações, ao passo que os consumidores ficariam protegidos de aumentos bruscos ou muito pronunciados.

As metas nacionais também poderiam ser mais flexíveis. Se as misturas obrigatórias de biocombustíveis tivessem vigências mais prolongadas, e não de apenas um ano, os agentes políticos poderiam influir na demanda de modo a minimizar a pressão sobre o preço dos alimentos.

Finalmente, no âmbito individual também é possível proporcionar uma maior flexibilidade, nos postos de combustível, mediante o incentivo a veículos flex-fuel como os que são usados no Brasil. Equipando os automóveis com motores que funcionam tanto à base de combustíveis fósseis convencionais como de misturas com maior teor de biocombustíveis, os consumidores podem se adaptar às variações de preço, alternando entre uma opção ou outra.

Encontrar o equilíbrio correto não será fácil. Mas se fizermos uso de nosso conhecimento coletivo, incluirmos os pequenos agricultores de países em desenvolvimento nessa empreitada e mantivermos o foco na redução da pobreza e na proteção dos mais vulneráveis, é possível obtermos mais combustível, mais alimentos e mais prosperidade para todos.

* José Graziano da Silva é diretor-geral da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação

Tradução novaCana.com

Fonte: http://www.novacana.com/n/etanol/meio-ambiente/diretor-fao-desconstroi-competicao-bioenergia-alimento-170715/

 

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