Disrupção

Por Renato Pereira (*) – De vez em quando é bom aparecer um boquirroto disruptivo como Donald Trump, que, contestando o pensamento hegemônico, põe em dúvida o senso comum consolidado por incontáveis repetições de ideias nem sempre verdadeiras.

O discurso do presidente americano apoiando os chamados “negacionistas” – que, segundo os ativistas ambientais, seriam os descrentes das evidências climáticas – serve de reflexão para o Brasil, que tem engolido a ideia, imposta pelos ativistas do meio ambiente, de que é o responsável pelo ar que o mundo respira.

São muitos os caminhos que esses “afirmacionistas” (aqueles que, conforme neologismo que acabo de criar, não duvidam do incerto ou inconcluso) usam para impingir-nos suas teses. Uma delas, muito em voga, é que o mundo inteiro deixaria de comprar produtos agrícolas brasileiros se teimarmos em derrubar árvores.

Não discuto a necessidade de mantermos as florestas do planeta, mas, por certo, os custos dessa tarefa precisam ser distribuídos igualmente para todos os passageiros deste barco.

O nosso Código Florestal mostra bem o fardo que o mundo pôs em nossas costas, obrigando-nos, mediante bravatas, a carregar o ônus de manter florestas em pé para compensar o corte raso que os países desenvolvidos fizeram nas suas matas. Como a pressão funcionou, convenceram-se de que somos uns colonos assustados, que enfiam o rabo entre as pernas com qualquer ameaça de retaliação comercial.

Mas há uma chance de reverter essa situação. Com a mudança da tendência política no mundo e no Brasil, dando um passo à direita, está surgindo uma brecha para transformarmos em lucro o que hoje é um prejuízo. Não convém contestar a ideia da manutenção das florestas do planeta, porque elas são necessárias. O caminho é buscar meios de distribuir a responsabilidade dessa preservação entre todos os países.

Para isso, primeiro temos que desmistificar o poder de retaliação dos “confirmacionistas”. É bom dizer que o Brasil tem dois terços (66%) de seu território coberto com matas nativas; o planeta cerca de 30%; e os Estados Unidos, maior produtor de grãos, somente 23%.  O mundo que compra, sem restrições, a safra americana, por certo não recusaria a nossa, pois somos os maiores preservadores de florestas nativas.

Como não há outros fornecedores de alimentos do nosso porte, os compradores não conseguem excluir-nos desse mercado. Assim é possível aproveitar essa vantagem para propor leis que nos permitam ampliar a área agricultada, mesmo derrubando matas.

Não, não vamos cortar árvores, apenas usar essa arma (a lei, ou a proposição dela) como forma de pressão para exigir daqueles que nos oprimem uma participação maior nas despesas de manutenção do estoque florestal do mundo.

Entretanto, para não parecermos radicais, como gesto de cooperação, podemos dar às nações desenvolvidas a opção de evitarem esse possível desmatamento, mediante compromisso de reflorestarem, em seus países, áreas idênticas à que salvaríamos da motosserra.

Eles vão resistir porque o custo para regenerar vegetação nativa é muito alto, mas também ficarão preocupados com a possibilidade de diminuição de nossas matas, que consideram indispensáveis para equilíbrio do clima. Aqui os interesses se encontram: podemos manter nossas árvores em pé e dispensá-los do custoso reflorestamento, desde que paguem pelo nosso serviço de oxigenação da atmosfera. Seria uma taxa anual pelo uso de nosso “pulmão”, posto que já destruíram os deles.

É quase certo que os “confirmacionistas”, quando nos ameaçam de retaliação comercial, estão “trucando” em falso e nós correndo amedrontados com boas cartas na mão. Ou, mudando a metáfora:  parece que os gatinhos inofensivos aprenderam a rosnar como tigres para nos intimidar.

Mesmo correndo algum risco, é hora de ver as cartas para desmascarar o blefe.

(*) Renato de Paiva Pereira – empresário e escritor em Cuiabá/MT. Contato: [email protected]

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