A hilária vida do ansioso

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Em uma leitura agradável e descontraída, o jurista Dr. Lutero de Paiva Pereira, autor de mais de duas dezenas de obras jurídicas do , mostra seu lado humano e literário neste livro de crônicas e relatos muito bem humorados, que retratam, em uma espécie de autocrítica, seu dia a dia e o de todos aqueles que, assim como o autor, vivem às pressas para tudo e qualquer coisa.

Deixando de lado, por um momento, os temas jurídico e do que dominam o Direito , resolvemos compartilhar um trecho do mais novo lançamento do Dr. Lutero de Paiva: A hilária vida do ansioso.

“Antes de mais nada, devo confessar que não resolvi escrever este livro.

Uai, o leitor poderá perguntar:

Como assim? O cara não resolveu escrever o livro e escreveu?

Isso mesmo, e a resposta tem uma explicação lógica.

Escrevi sem resolver escrever justamente por ser ansioso.

O ansioso não resolve e depois faz.

O ansioso simplesmente faz.

O ansioso pula a etapa de resolver fazer e já começa a fazer de cara o que tem que ser feito, pois para ele o processo de resolver envolve tempo, demanda de reflexões, avaliações etc., coisas que não estão presentes no seu horizonte de comportamento.

Ansioso que é ansioso quando se dá conta de que está fazendo uma coisa, é porque já terminou e está fazendo outra.

Engraçado, né? Mas é assim mesmo.

Quem é ansioso sabe o que estou dizendo. E quem não é, por mais que tente entender esse dinamismo, não entenderá.

O ansioso, para muitas pessoas, se parece com a onda do mar desmanchando castelinhos de areia feitos por crianças orientadas por adultos distraídos: quando você vê, a onda já veio e desmanchou tudo, porque a maré subiu e o cálculo de alcance da água não foi feito corretamente a ponto de livrar a edificação do seu poder de destruição.

Quando o ansioso está em sua fase ativa, o que é todo dia e, não poucas vezes, também toda a noite, ai incluídos os dias úteis, os finais de semana e os feriados, ele passa por cima de tudo e de todos, desmanchando os “castelinhos” dos que estão próximos dele, ainda que sem maldade, mas por impulso espontâneo.

E o ansioso percebe isso?

Sabe que está fazendo assim?

Não.

Talvez já fosse o caso de se abrir uma linha de pesquisa científica para buscar solução para o coitado, e também para a coitada da turma que é atingida pelo ansioso, pois ambos merecem atenção.

Porém o estudo terá que prometer solução no curto prazo, pois se disser que vai demorar um bom tempo para ter uma conclusão razoável, o ansioso se recusará a ceder material “genético” para a pesquisa, pois tudo para ele tem que ter o carimbo da rapidez.

A história deste livro, como a de tantos outros que escrevi, pode ser explicada nos seguintes termos: quando vi, já estava escrevendo outro numa sucessão de afazeres sem fim.

Quando “acordei” e me dei conta, o texto já estava pronto para a impressão.

E mais: não só estava pronto para impressão, como já pressionava a editora para imprimi-lo o mais rápido possível.

Imprimir rapidamente porque tinha uma data para fazer o lançamento ou alguma encomenda a ser cumprida em data próxima?

Nãnaninão. Nada disso.

Imprimir logo simplesmente porque rapidamente é o ritmo do ansioso. Ritmo dele e ritmo que ele quer imprimir nos outros.

A vida do ansioso é fazer sempre e a todo o tempo, sem nunca parar porque ele tem a sensação de estar sempre atrasado em suas obras.

Para o ansioso o que está sendo feito hoje, já deveria estar pronto ontem, de modo que acelerar é sempre preciso para não chegar atrasado numa coisa que ele já acha estar atrasado.

Mas como não atrasar a entrega de uma coisa que deveria ser feita ontem e ainda hoje deve receber alguns retoques e reparados para ser finalizada?

Pois é.

Não é sem razão que, de quando em quando, o ansioso tem que mandar umas coisas para o peito para ver se o fôlego se acalma, o ritmo diminui e a velocidade fica dentro do permitido para se viver numa nice.

Por tudo isso é que o ansioso não sonha.

Sim, ansioso não sonha. Ele já realiza e ponto final.

Para o ansioso a vida é muito curta para perder tempo com conjecturas, com sonhos, com elaboração de projetos para só mais tarde serem trazidos à existência.

Aliás, coisa que ansioso detesta é a tal expressão: “mais tarde”.

Se você quer continuar a ser amigo de um ansioso, mantendo o bom relacionamento e dele não receber qualquer palavra de cobrança, por favor, pare de usar a expressão “mais tarde”.

“Mais tarde eu vou”; “mais tarde eu decido”: “mais tarde eu olho”.

Quando o ansioso ouve de alguém dizer: vamos mais tarde”, dentro dele já levanta uma vozinha nada delicada, que dá para ser ouvida do lado de fora, embora seus lábios não tenham pronunciado nenhuma, dizendo:

“Nãoooooooo. Vamos agooooora”.

“Mais tarde” comunica para o ansioso a ideia de “muito tarde” e “muito tarde”, por sua vez, parece ser algo realizado com atraso.

Aliás, se tem uma coisa que tortura ansioso é noiva em casamento. Quando ele chega na igreja, ver no altar o noivo esperando já há longos 10, 15 ou mais minutos, e a noiva insiste em atrasar para manter a tradição, a vontade dele é mandar um Uber buscar a rainha.

Se esse ansioso se contém é porque sua esposa ou lhe toma o celular, ou habilmente distrai sua mente chamando a atenção para a beleza dos arranjos do lugar (coisa que ele nem notou quando entrou no recinto).

No atraso de alguém o ansioso se agita e pula como peixe fora d’água.

Se é bom ser assim, não sei. E não sei porque nunca soube como é ser de outro jeito.

Só sei que a coisa funciona desse modo e daí para pior.

O fato é que o ansioso age assim, pulando etapas que para o não ansioso são essenciais e necessárias para fazer tudo que se intenta fazer.

Ansioso pula etapas, tanto quanto pula degraus de escada rolante.

Sim, quem ver uma pessoa usando uma escada rolante do shopping logo saberá identificar se se trata de um ansioso ou não.

Se a pessoa está sempre buscando o degrau de cima em vez de ficar quieto no degrau debaixo em que se encontra no momento, – bingo – é ansioso.

Ainda bem que não deve ter nenhum ansioso construindo ou programando escada rolante, pois, se fosse ele o fabricante, a velocidade da escada seria tão acelerada, que ao chegar no ponto de descida o usuário seria quase que cuspido e arremessado com tal violência no andar de destino que seria necessário construir à frente uma parede de proteção de espuma para o coitado não ser esmagado contra a parede.

Portanto, para bem de todos, o melhor mesmo é que os não ansiosos continuem sendo responsáveis pela construção e programação das escadas rolantes, pois assim o índice de acidentes tende a continuar mais baixo.

Como este livro foi escrito não para ser um juízo de valor sobre a vida do ansioso, mas somente para ser um registro de alguns de seus passos apressados, e nada mais do que isso, deixe a crítica contra o ele para outro momento e se deixe levar pelos fatos narrados, inteirando-se um pouco mais do seu agitado modo de ser e, quando possível, se divertindo com suas doideiras.

Aqui a leitura é para descontrair, portanto, vamos lá.”

Se gostou deste trecho, você pode gostar também do livro completo, disponível em nossa loja:

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